
A praça estava escura, sem ruídos exceto o dos carros na rodovia ao longe. Tentou caminhar de forma controlada, como quem não está com pressa, mas os pés não atendiam, assim como todo o corpo, estavam ansiosos para chegar. Caminhou, fez uma leve corrida, com um ou outro tropeço devido à má qualidade da praça, até que avistou do outro lado, no mesmo banco de quase um ano atrás, ele.
Ali, não se soube quanto tempo ficou parado, o tempo foi substituído por raios de lembranças, ali se passaram 12 meses de historias, de brigas, de declarações exageradas. Lembrou-se da vez que os dois viajaram para uma cidade próxima e ficaram cinco dias juntos, lembrou-se da vontade e da certeza de dizer que aquele era quem gostaria de estar por toda sua vida. Recordou das brigas, de quando acusou ele de ter saudades de um ex, de quando ele acreditava que estava o traindo com um dos seus amigos. Lembrou se de tudo, era um filme vagabundo passando por sua mente, contou quantas atitudes medíocres marcaram o relacionamento. Incontáveis.
Porém, agora, nada mais importava, se estava ali, agora tudo seria um fatalismo incontrolável, uma grande roda de lembranças do desespero e a renuncia que sentiram. Mas ainda havia amor, não o amor puro e de leitura barata, mas havia um sentimento aflito de falta, esse sentimento chamaria de amor por falta de melhores palavras.
Aproximou, ele notou sua presença, a presença. Isso era uma coisa que sabia ter, não só por sua teimosia em ser maior, mas ali havia presença de quem chega e esta disposto a não se abandonar. Cumprimentaram-se, houve uma pausa, sentados lado a lado, eram um casal contraditório perfeito.
Algum começou um dialogo pausado, e dali foram se seguindo outras falas. Sussurravam. Falavam tão baixo que nem eu, próprio narrador, entenderia. Houve um beijo, febril e mal planejado, houve um sorriso amarelo, houve uma senhora que passara ali com olhar de repreensão. Houve muitas coisas, que apenas para os dois, não para mim e você, mas só os dois sabiam o quanto era importante cada gesto, cada ato, cada vontade de gritar e chorar aos beijos abafados, que eles desejavam e escondiam. Dali o tempo, resolveu pregar uma peça e passar rápido e assim passou.
Naquela madrugada fria, em um dos quartos dos muitos apartamentos, dos vários prédios, das varias cidades do mundo, ele estava chorando, chorando a seco. Caminhou (dessa vez, de forma controlada) para uma das pequenas gavetas do armário, pegou algo um tanto sem jeito, e a pólvora estourou sua cabeça e o som silenciou a voz de quem decidiu que amava.
[...]
